Descubra as causas da recusa alimentar na criança.
O diagnóstico diferencial, muitas vezes, é difícil, pois geralmente as crianças com causas comportamentais de recusa do alimento se apresentam com déficit de crescimento e vômitos, não sendo, portanto, permitido utilizar esses sinais e sintomas como indicativos de doença orgânica.
Além disso, crianças que não comem bem podem não crescer, mas o inverso também é verdadeiro. Crianças que não crescem por outros motivos, podem se alimentar menos, porque necessitam de menos calorias.
Quando uma criança passa a recusar o alimento devido a uma doença, algumas características nos chamam a atenção para as causas orgânicas, como o início recente ou por tempo definido, associação com outros sintomas mais característicos da doença em curso e sinais clínicos também sugestivos, como o retardo no crescimento e desenvolvimento.
Nesses casos, é essencial o diagnóstico preciso, uma vez que o tratamento adequado poderá levar à cura da anorexia. As patologias mais freqüentes são a doença do refluxo gastro-esofágico, aquelas que causam dor ou dificuldade à deglutição e alergias alimentares, dentre outras. É muito importante lembrar que nesse grupo de causas orgânicas, o baixo peso da criança é geralmente um fator de grande preocupação, podendo levar os familiares e a equipe médica a forçarem a alimentação da mesma, o que por sua vez, pode ser desastroso, levando a uma verdadeira aversão da criança pelo alimento.
Os transtornos alimentares na infância geralmente se apresentam como a recusa a se alimentar ou a criança passa a comer muito pouco, interrompendo as refeições, após as primeiras porções serem provadas. Muitas vezes, a ocorrência de náuseas e vômitos, irritabilidade, atraso no desenvolvimento físico e baixo peso podem simular uma doença orgânica e confundir o diagnóstico.
Mesmo quando a criança não come por causas psicológicas, ela pode tornar-se verdadeiramente doente devido à desnutrição e à maior vulnerabilidade a outras patologias. Nesses casos, são comuns a anemia por deficiência de ferro e vitaminas e a carência de proteínas, contribuindo inclusive para um retardo no crescimento. A suplementação medicamentosa, muitas vezes, se faz necessária até que a solução alimentar seja alcançada.
Três situações são sugestivas de anorexia de causa comportamental:
1) ocorrência de fatores traumáticos para a criança, precedendo a anorexia como transições alimentares agressivas durante o desmame e imposições de horários e volumes das refeições independente da fome da criança;
2) criança submetida a práticas alimentares anormais como ser alimentada quando sonolenta ou dormindo, ser obrigada a ingerir alimentos à força, receber alimentos em refeições a intervalos rigorosamente controlados, independente da fome, ser alimentada enquanto distraída por objetos, músicas ou presentes e ser forçada a continuar uma refeição que ela esteja rejeitando por longo tempo;
3) a ocorrência de uma reação da criança como que engasgada, antes mesmo de haver deglutido o alimento.
Para abrir o apetite...
Os estimulantes do apetite são muito mais um alívio para as mães do que para a própria criança. Na maioria das vezes, essas drogas tranqüilizam a mãe aflita, causando com isso uma menor interferência da ansiedade dela em relação ao filho, com conseqüente melhora da aceitação do alimento pela criança. Mesmo assim, essa não é uma solução definitiva, uma vez que as causas fundamentais da falta de apetite prevalecem e voltam a dificultar a alimentação da criança.
Diante da falta de apetite de origem comportamental, o tratamento da criança tenta recuperar o prazer do ato de se alimentar e orientar a família no sentido de que o apetite voltará gradualmente. Qualquer tentativa de forçar a alimentação pode criar um mecanismo de repulsa à simples citação do alimento. Muitas vezes, o tratamento deve ser iniciado com a correção de hábitos alimentares anormais da família, com reflexos na maioria das vezes, positivos na alimentação da criança.
Tratando a anorexia infantil
Quando existe uma patologia, como alergias alimentares ou doenças gastrintestinais bem definidas, o tratamento da mesma geralmente traz alívio à criança e compreensão dos familiares da sua real dificuldade em se alimentar. Não haverá tamanha cobrança e a tensão gerada pela situação se reduz.
Nos casos da origem comportamental, os cuidados devem ser voltados à família, que precisa de orientação e assistência para que consiga voltar a encarar as refeições dos filhos como uma opção deles, sem as idéias de obrigatoriedade, punição ou recompensa. Em alguns casos, as crianças precisam comer longe dos pais, inicialmente, até que elas consigam fazer suas próprias escolhas na presença deles.
Dra. Ellen Simone Paiva Médica é especializada em endocrinologia e nutrologia. Diretora clínica do CITEN - Centro Integrado de Terapia Nutricional. Para saber mais, acesse: www.citen.com.br
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