“A linguagem da criança é a linguagem da brincadeira. Através do faz-de-conta, ela expressa suas percepções acerca do universo adulto, elabora sentimentos e se apropria, pouco a pouco, da realidade que a cerca. A principal tarefa da criança, portanto, é chegar a este mundo. E a maneira que ela tem de se comunicar é o faz-de-conta. Mas para quem pensa que a vida da criança é só brincadeira, aí existe um engano – até os sete anos de idade, ela trabalha, e muito. É o início de uma longa jornada que abrange a agitada vida dentro da barriga, com todos os seus ‘ruídos’, integrando-se a este espaço que a cada dia se torna mais apertado, e, ainda, compartilhando as emoções da mamãe, ouvindo sua voz, a do papai e muitos estímulos que vêm de fora. Logo depois, com a fantástica experiência do nascimento começa o longo trabalho de diferenciação (há quem diga, porém, que já desde a vida intra-uterina, existem indícios de um caminho próprio do bebê. Ou seja, de alguma maneira, ele já envia sinais à mãe, que responde, e elabora esta resposta. Isto parece acontecer a nível biológico, instintivo, mas pode ser um sinal de que o bebê não é uma ‘tábula rasa’*...). É hora de deixar, gradualmente, o universo materno e andar com as próprias pernas. Neste processo, começam a ser integradas a presença do papai, depois das pessoas mais próximas e assim sucessivamente. Quando tudo parece terminado, chega o momento de entrar na escola!
Nós, adultos, quando queremos transmitir nossas idéias ou sentimentos, conversamos. A criança brinca - o que pode nos estimular a aprender uma nova língua,a o mesmo tempo resgatando a criança que fomos e que ainda existe em nós. Quando, então, perguntamos à criança que chega da escola: “Você brincou muito?”, estamos nos referindo não somente a uma atividade corriqueira, mas à apreensão da realidade, à aquisição e à elaboração do conhecimento.
E como a arte pode nos auxiliar neste percurso? Ou melhor: o que a arte tem a ver com isso?
Arte é uma forma de conhecer, assim como a ciência. Para o conhecimento científico, utilizamos nossa intuição e também o nosso pensamento, observando, reunindo dados, registrando e tecendo conclusões. Para o conhecimento artístico, colaboram nossa intuição e nosso sentimento. Entramos em contato com determinado aspecto da realidade, sentimos, nos emocionamos, relacionamos com nossas experiências externas e internas – que, inclusive, contribuem para a observação – e nos posicionamos. O prazer estético é um dos maiores prazeres que o homem já conheceu, porque não pára nas sensações, mas nos toca o fundo da alma. E o aprendizado que passa pelo mundo das emoções, dificilmente é esquecido.
Fazer teatro, assim como qualquer outra linguagem artística, permite à criança a comunicação de emoções, conflitos e idéias, auxilia em suas tarefas de autoconhecimento, estruturação e ampliação da Consciência, de integração à realidade, estimulando o desenvolvimento saudável e integral, assim como a realização total de suas potencialidades. Além disso, ajuda a sensibilizar e a descobrir, a si mesma e suas relações com o espaço e com o Outro. É importante que a criança tenha acesso a obras, visite exposições, vá ao cinema, ao teatro, e, principalmente, que estes sejam momentos gostosos e aproveitados também para fortalecer nossos laços afetivos. Assistir junto com o papai e a mamãe, ler com eles uma boa história, pintar livremente, tudo isso nos aproxima e nos faz a cada dia seres humanos mais sensíveis e melhores, além de ser uma delícia...
Que este seja um ano de muita arte e criatividade! Paz a todos e um excelente 2008.
Elaine (Ly)
* FORDHAM, Michael. A criança como indivíduo. São Paulo, Cultrix, 1994.”
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